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Artigo | Arq. Romeu Duarte | Ainda aquela vil matemática

A José Alberto de Almeida (Beto)

 

Perdoe-me, querido leitor, por continuar a abordar, nestas linhas eletronicamente mal-traçadas, o assunto desigualdade. Sei de sua aridez e da polêmica que levanta sempre que é mencionado. Gostaria de estar por aqui a tratar de temas mais amenos, próprios da saison. Contudo, seja nesta Loura, em São Paulo ou em Paris, o tópico deixa entrever descalabros tais, fazendo-nos imaginar tantos infernos, que não consigo por bermudas no refletir. Como Pessoa, para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento do pensar. Na crônica passada, cuidei de uma economia maligna, lixando-se para a prosperidade geral dos povos e posta a serviço, isso sim, do benefício de 1% da população mundial, os mais ricos. Os números dançam em uma soma cruel.

Pois bem. Para quem é viciado em ler jornal (de papel, por favor) como eu, viu que os periódicos publicados no fim de semana passado foram pródigos em informações sobre a maldita, agora centradas nesta terra de Mãe Preta e Pai João. Dizem os estudiosos da miséria e da riqueza alheias que, se no Brasil os 10% mais ricos ganham entre 4 e 13 vezes mais do que a média de renda dos demais cidadãos, neste nosso Cearazinho de mel e cachaça a proporção aumenta, decorrente do fato do 1% abastado ganhar 15 vezes acima da média no Estado, que é de R$ 1,1 mil. O curioso resumo da ópera: assiste-se hoje no planeta a dois processos simultâneos: a redução da pobreza e um incremento da  desigualdade. Pobres menos pobres, ricos mais ricos. Aonde isso vai levar?

Na última terça-feira, a notícia que deixou todo mundo de cabelo em pé: segundo uma ONG mexicana, em 2015, Fortaleza e cidades de sua região metropolitana ostentaram o sangrento título de território mais violento do País, ficando na 12ª posição planetária no ranking da categoria. O placar é barra pesada: 60,77 mortes para cada 100 mil habitantes, com o estarrecedor detalhe de 1.651 homicídios perpetrados só em nossa cidade no período. Discussões sobre o método de aferição dos dados à parte, o certo é que a pesquisa trouxe como resultado um quadro que por nós é sobejamente conhecido na pele. Perguntar não ofende: será que essa violência toda é fruto somente dos maus espíritos que vagueiam por aí e da droga livre, leve e solta?

Na minha modesta opinião, ninguém nasceu para Amélia, aquela feminina e resignada invenção do Mário Lago que passava fome e achava bonito não ter o que comer. Na sociedade viciada do deus Consumo, motivada pela tremenda diferença entre os desiguais, quem não tem vai tomar na mão grande de quem tem. Há quem defenda, como única solução para o problema, que o faroeste caboclo que toma de conta do nosso cotidiano seja resolvido apenas na base do “passa o rodo”, como se injustiça social, renda concentrada, corrupção e ineficácia policial e jurídica fossem abstrações. Detalhe: em nossa capital, 75% dos bairros tem IDH baixíssimo e 26% de sua grana está em poder de 7% dos seus moradores. É mole? Fala Piketty: “Devemos cuidar da base da pirâmide”.

Publicado no jornal O Povo, em 1º/02/2016.

 

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