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Artigo | Arq. Romeu Duarte | Dezembro

A João Fortes

 

Longa é a espera nas imensas filas dos caixas da loja de departamentos no Centro. O suor generoso escorre pelos cabelos, pescoços, seios, barrigas, genitálias, nádegas e pernas naquele frenesi consumista, na contramão mesma da crise que assola o país. “Minha senhora, avie aí! Meus bombons de chocolate estão derretendo!”. O calor nunca antes pressentido soma-se cruelmente a uma sequidão dos infernos, ampliando a sensação de estar sendo torrado vivo. O barulho da rua mais o bate-estaca do som ambiente e o alarido dos corpos seminus transforma o estabelecimento no cassino de Asmodeu. “Meu senhor, dezembro é desse jeito, é o peru assando e a chibata comendo”, diz uma velhinha, agarrada com a bolsa e seus sacos de compras.

“Chupa, din-din”, grita o vendedor do próprio, abanando o produto na cara dos fregueses em plena Floriano Peixoto. Algumas pessoas, vencidas pela canícula, postam-se sob as árvores da Praça do Ferreira aguardando o Juízo Final. “Chapa”, diz o esmoler, “as coisas estão mudadas. Hoje você passa e os pombos nem saem do meio”, e me pede um real pela vã filosofia. No Raimundo do Queijo, os ocupados com o ócio analisamos detidamente a conjuntura política nacional: “O óleo de peroba está em falta nas boas casas do ramo”; “Fosse comigo, responderia a tal carta com duas frases: ‘Aí dentro, passar bem’”; “Escolham: vivemos na casamata do Judiciário, na Casa de Mãe Joana do Legislativo ou nas ruínas do Executivo?”. Por falar nisso, há urubus no céu.

No outro lado da cidade, a ansiedade não é menor. Visível somente para alguns, a neve cobre os shoppings da Aldeota. Nem parece que estamos à mercê de cruéis mosquitos, de mazelas tropicais ou africanas ou de moléstias que imaginávamos terem dado o pira na Idade Média. Na praça de alimentação lotada, os assuntos da saison estão em todas as bocas: os mil bazares natalinos, as incontornáveis festas de fim de ano, os amigos que, além de falsos, são secretos. Na mesa ao lado, o gordo anuncia: “Já pedi à minha mulher meu presente de Natal: um fígado zerado, auto-limpante, três velocidades, pois o meu transformou-se numa picanha”. No rise and fall das escadas rolantes movimentam-se paixões. No ar, soa a polifonia dos celulares.

Uns, por já não aguentarem mais a intensidade do derradeiro desta turbulenta sequência de meses, rogam clemência ao Criador: “Arre, dá 2016 e 2015 não acaba! Tenha piedade, Chefia!”. Outros, malinos lobos em pele de cordeiro, propõem: “Para tanto dezembro, um ano com eleição e Olimpíada compensa que é uma beleza”. Lá fora, suada e engarrafada, a vida flui vagarosamente nas vias, viadutos, túneis e binários. Enquanto meninos vestidos de Papai Noel entoam cânticos nas sacadas do velho hotel central, a praça-rotatória exibe uma árvore iluminada, feita de velas de jangadas. “Reconhecimento do seu valor como marco urbano ou apenas a visita da saúde?”, pergunta o encrenqueiro. No Circular 2 apinhado, o casal de namorados vê a lua nascer.

Publicado no jornal O Povo, em 14/12/2015.

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