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Artigo | Arq. Romeu Duarte | Picolé sabor divergência

“O mundo está se acabando!”, exclamou o gordinho, chaves, carteira e celular na mão esquerda, tomando assento na mesa do bar naquele sábado canicular. “Diga aí, cara”, respondeu o amigo, “o que houve para você estar assim tão afobado?” “Depois da tragédia de Paris, agora os terroristas do EI atacaram o Mali! Fala-se em dezenas de mortos!”. “Esses fatos aparecem na imprensa como se não fossem motivados por outra coisa senão o ódio dos jihadistas aos cruzados, como eles nos chamam”, replicou o outro. “Lá vem você com a sua aula de história”, atacou o buchudo, “virou fã do Maomé, é?”. “Nada disso, mas décadas de chibata no lombo geram monstros, não? Ou será que todo muçulmano é bandido?”, argüiu o chapa. “O Islã é do mal e brá!”, disse o bolão.

“Mudando de conversa”, propôs serenamente o colega, “tragédia mesmo foi aquela chacina na Grande Messejana. Onze jovens liquidados, aqui na nossa cara”. “Para mim”, rosnou o rolha-de-cacimba, “mataram só onze marginais, o que lamento. Deviam ter matado mais, passado o rodo geral no Curió, no Palmeirinha, no São Cristóvão e no São Miguel! Cabra fuleiro é para comer capim pela raiz!”. “Meu caro”, falou o parceiro, “já vi que hoje vai ser difícil conversar com você. Dos que morreram, apenas três tinham passagens pela polícia: agressão, pensão não paga e direção perigosa. Zero de droga”. “Quero nem saber, fica como aviso. Agora os malandros vão pensar duas vezes antes de agir”, queimou ruim o obeso, “só quem reclama é otário, assim tipo tu, cara”.

“Otário é você, rapaz”, rebateu o camarada, “não somos obrigados a ter o mesmo ponto de vista, mas agressão não tem nada a ver”. “Não estou lhe agredindo, somente lhe fazendo enxergar a realidade, já que você é ingênuo”, gozou o bolo fofo, “Por exemplo: essa enxurrada de lama lá em Mariana. O canelau protestando, etc. e tal, mas depois eu quero saber de onde é que vão tirar o sustento do povo. É da mineração mesmo, doido. Esse negócio de natureza é um trambolho”. “Você diz isso porque não teve a vida destruída pela avalanche”, alfinetou o companheiro de papo, “Imagino você sendo levado pela torrente, o Free Willy todo enlameado, respeite a comédia”, riu-se. “Frescando, né?”, irritou-se o tonelzinho, “Comentário típico de petralha esse seu, cabeção”.

“Agora você pegou pesado, sujeito!”, levantou-se o Big Head, preparando-se para a luta corporal. “Não quero brigar com você, comunista, lhe conheço desde a infância, basta você ir para Cuba que já está bom”, brincou o Dumbo. “Comentário típico de tucanalha esse seu”, devolveu o macrocéfalo, “baleia do Eduardo Cunha”. “Apelou, né, cabecinha de nós todos?”, zangou-se o pançudo, “ia até lhe convidar para depois daqui tomarmos um picolé de abacate, mas agora de jeito nenhum”. “Picolé de abacate é o meu fraco, você sabe disso”, amoleceu o maçã-do-amor. “E feito com leite condensado? Um pecado”, curtiu o bujão, “A Terra deveria ser um infinito picolé de abacate, todos viveriam em paz”. “Sou mais o de cajá”, cortou a víbora da mesa ao lado.

Publicado em jornal O Povo no dia 23/11/2015.

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