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Artigo | Arq. Romeu Duarte | Cidade enquadrada

A Águeda Ribeiro

Semaninha difícil esta que passou. Assunto, principalmente ruim, não falta. De que me ocuparei nesta crônica? Das balas que vararam corpos juvenis na Grande Messejana? Da avalanche de lama (calma, Cunha, não é com você) que acabou com o Rio Doce? Dos atrozes atentados do Estado Islâmico em Paris? Dos nossos gloriosos vereadores metidos em camisas de onze varas pelo MPCE? Escolho um que talvez pareça irrelevante, mas que carrega uma potente dose de letalidade: a privatização do espaço público em Fortaleza. Espalhado pelo corpanzil da Loura, mas elevado à condição de arte no Centro, esse processo inferniza há tempos a vida dos cidadãos e parece contar com o beneplácito das autoridades municipais, a tirar pelas suas recentes afirmações.

Como forma de ordenar a atuação dos vendedores ambulantes (que não ambulam nem deambulam, aliás) na zona central, a Prefeitura elaborou um plano genial: quadrados serão demarcados nas calçadas e vias para definir as áreas onde os camelôs poderão vender suas mercadorias sem receio de serem importunados. Instadas sobre a razão de proposta tão extraordinária (e, diga-se, já praticada pelos próprios pracistas) não ter sido ainda levada a efeito, as autoridades jogaram a culpa pelo atraso na dificuldade em adquirir a tinta para a pintura das figuras planas com quatro lados iguais e quatro ângulos retos. Para quem não sacou a geometria do lance, lá vai: quando populismo e política urbana se misturam, aniquila-se o estado de direito, fere-se de morte a cidade.

Indeciso entre o sebo de carneiro e a pomada japonesa, embatucado leitor? Em sendo arquiteto e urbanista, defendo o disciplinamento e não a eliminação de negócios, principalmente numa capital miserável como a nossa. Em vez de prospectar locais adequados ao desenvolvimento desse tipo de atividade (e os há em grande quantidade) e planejar sua sustentável apropriação pela ajuizada via da arquitetura, prefere-se o caminho mais fácil, embora tortuoso e gerador de conflitos de toda ordem. O resultado é claro: além de virar uma metrópole axadrezada, nosso torrão ficará ultra-refém desse modelo de comércio, agora garantido pelo Município. Afinal de contas, as eleições estão aí e ninguém é doido de perder voto, mesmo que à custa da qualidade de vida, não é mesmo?

Tatibitate entre a tiara gde oncinha e o gigolete da moça da novela, hesitante leitora? Sei que muitos garotos e garotas com cara de Caderno B (eles de barba hirsuta e óculos de aro preto, elas de cabelo Chanel de franja longa com as mesmas lunetas, todos aborrecidos e blasés) me chamarão de reacionário, elitista e defensor da gentrificação. Sorrindo, repito a velha lição que aprendi no IAB: o espaço público é de todos e não é de ninguém. Leis existem para serem respeitadas e não para se transformarem em páginas viradas pela omissão e a negligência oficiais. Chega de “reordenamentos”, que nada mais são do que novas roupagens do velho e manjado “jeitinho” brasileiro. No momento em que se projeta Fortaleza para daqui a 25 anos, difícil imaginar uma providência pior.

Publicado no jornal O Povo, em 16/11/2015.

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