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Artigo | Arq. Romeu Duarte | Ó, mundo desigual

A Periguari Paiva

 

É certo que nascemos diferentes. Quer pela origem geográfica, quer pela cor da pele ou pelo que trazemos de patrimônio genético. Entretanto, a diferença entre os seres humanos é fundamentalmente estabelecida pela disparidade na distribuição, entre os povos, do chamado vil metal. Chama-se a isso desigualdade, doença social que acomete os países não desenvolvidos ou subdesenvolvidos e que se traduz no extremo desequilíbrio entre os padrões de vida dos seus habitantes, seja no plano econômico, escolar, profissional ou de gênero. Causadoras da chaga, a má distribuição de renda e a falta de investimentos em programas de promoção social são formulações de cunho político, preparadas com gosto visando ao fim único da vil e rentável apartação.

Deu no jornal: segundo a Oxfam, uma ONG britânica que opera no ramo, a riqueza acumulada por 1% das pessoas mais ricas do mundo superou em 2015 a dos 99% restantes, um ano antes do que afirmavam as previsões a respeito. Isso às portas do Fórum Econômico Mundial, realizado anualmente em Davos, Suíça, e inaugurado na última quarta-feira. Em seu relatório, intitulado “Uma economia a serviço do 1%”, a instituição constatou que “o fosso entre a faixa dos mais ricos e a do restante da população (do planeta) se aprofundou de maneira espetacular nos últimos doze meses”, o que é exemplificado pelo fato de 62 pessoas possuírem tanto capital quanto a metade mais pobre da população mundial. Esse valor corresponde a US$ 1,762 trilhão. É mole, leitor?

No Brasil varonil, apesar de todos os esforços empreendidos pelos governos nos últimos anos, filtrou que os dados da Receita Federal apontaram uma surpresa: a renda da classe A é 40,9 vezes maior que a da D e E, desbancando a informação veiculada pelo IBGE de que a diferença apurada era de apenas 23,3 vezes. Ou seja, sempre se soube que a desproporção de renda no País era enorme, mas, na verdade, ela é muito maior do que se pensava. Viciados em consumo e cercados pelas montanhas de lixo que este produz, não temos reparado nessa condição, que mais e mais nos divide. Seria utópico imaginar uma sociedade indivisa e magnânima, moradora de um ambiente digno de si? John Lennon propôs isso. Ganhou uma bala, nada doce.

Para onde nos levará essa terrível matemática? Tornar-se-á mais severa com o tempo, advertindo-nos com o sofisma de que somos semelhantes, mas jamais seremos iguais? Permaneceremos eternamente reféns dos projetos do deus Capital, que surge cada vez mais perverso a cada renascimento seu? Acostumaremo-nos e até defenderemos a lei do mais forte, o primado inoxidável do mérito, mesmo entre contendores desaprumados, e a fria desconsideração para com o destino do outro? A TV ligada, com seu cortejo de tragédias, arrasta meu olhar do devastado norte da África para a avara Europa, separados por um Mediterrâneo que vai, pouco a pouco, tingindo-se de rubro. Correto, Galeano: “Eu não acredito em caridade, eu acredito em solidariedade”.

Publicado no jornal O Povo, em 25/01/16.

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